quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Jesus, o príncipe que decidiu ser amado em vez de temido



Todas as vezes que estou dando aula sobre Maquiavel não tem como não me inclinar a concordar com sua reflexão política sobre a ética do príncipe diante da sua visão do homem. E quando comento com os meus alunos, a concordância é geral. Vejamos, Maquiavel, autor de “o príncipe” disse:

“Vale mais ser amado ou temido (na chefia)? O ideal é ser as duas coisas, mas como é difícil reunir as duas coisas, é muito mais seguro - quando uma delas tiver que faltar - ser temido do que amado. Porque, dos homens em geral, se pode dizer o seguinte: que são ingratos, volúveis, fingidos e dissimulados, fugidios ao perigo, ávidos do ganho. E enquanto lhes fazeis bem, são todos vossos e oferecem-vos a família, os bens pessoais, a vida, os descendentes, desde que a necessidade esteja bem longe. Mas quando ela se avizinha, contra vós se revoltam. E aquele príncipe que tiver confiado naquelas promessas, como fundamento do seu poder, encontrando-se desprovido de outras precauções, está perdido. É que as amizades que se adquirem através das riquezas, e não com grandeza e nobreza de carácter, compram-se, mas não se pode contar com elas nos momentos de adversidade. Os homens sentem menos inibição em ofender alguém que se faça amar do que outro que se faça temer, porque a amizade implica um vínculo de obrigações, o qual, devido à maldade dos homens, em qualquer altura se rompe, conforme as conveniências. O temor, por seu turno, implica o medo de uma punição, que nunca mais se extingue. No entanto, o príncipe deve fazer-se temer, de modo que, senão conseguir obter a estima, também não concite o ódio.” (Nicolo Maquiavel, in 'O Príncipe')

Percebemos que a lógica da preferência por ser temido está na condição do homem. Não se pode amar quem é dado a dissimulação. Numa linguagem bíblica, não se pode amar o pecador.

E aqui está a grandeza da Graça, pois as escrituras, não aliviam a condição do homem. Vejamos o que diz em Romanos 3

10Como está escrito: “Não há nenhum justo, nem ao menos um; 11não há uma só pessoa que entenda, ninguém que de fato busque a Deus. 12Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que pratique o bem, não existe uma só pessoa. …”

Sim, o homem não é digno de confiança, não é digno do amor. Mas diferentes das recompensas da lei, o amor não é uma recompensa.
E como pode então, Cristo ter-nos amado? Penso que a melhor a resposta foi dada por Lutero “O amor de Deus não se destina ao que vale a pena ser amado, mas cria o que vale a pena ser amado”.  Há uma expressão em Apocalipse 21, que traduz bem isso:

“…4Ele lhes enxugará dos olhos toda a lágrima; não haverá mais morte, nem pranto, nem lamento, nem dor, porquanto a antiga ordem está encerrada!” 5E Aquele que está assentado no trono afirmou: “Eis que faço novas todas as coisas!” E acrescentou: “Escreve isto, pois estas palavras são verdadeiras e absolutamente dignas de confiança”. 6E declarou-me ainda: “Tudo está realizado! Eu Sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. A todos quantos tiverem sede lhes darei de beber graciosamente da fonte da Água da Vida.”

O amor de Cristo está fundamentado no poder de fazer nova todas as coisas. E por isso Nele o pecador se reveste de outra identidade.

17Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação; as coisas antigas já passaram, eis que tudo se fez novo!” (2Co 5)

Jesus, o príncipe de Deus inverteu a lógica do mundo, deixou toda possibilidade de ser temido, preferiu ser amado.

“…6o qual, tendo plenamente a natureza de Deus, não reivindicou o ser igual a Deus, 7mas, pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo plenamente a forma de servo e tornando-se semelhante aos seres humanos.8Assim, na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, entregando-se à obediência até a morte, e morte de cruz. …” (Fp 2)

Na relação com seus discípulos, ele claramente modificou a relação padrão.

15Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor; mas Eu vos tenho chamado amigos, pois tudo o que ouvi de meu Pai Eu compartilhei convosco. ” (Jo 15)

E os ensinou:

1Assim, pouco antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que havia chegado o tempo de Deus, em que partiria deste mundo e iria para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. 2Durante o final da ceia, quando já o Diabo incutira no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que deveria trair a Jesus, 3e, sabendo Jesus que o Pai lhe outorgara poder sobre tudo o que existe, e que viera de Deus e estava retornando a Deus, 4levantou-se da mesa, tirou a capa e colocou uma toalha em volta da cintura.
5Em seguida, derramou água em uma bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha que estava em sua cintura. 6Aproximou-se de Simão Pedro, que lhe disse: “Senhor, vais me lavar os pés?” 7Respondeu-lhe Jesus: “O que faço agora, não podes compreender, todavia o compreenderás mais tarde.” 8Disse-lhe Pedro: “Senhor, jamais me lavarás os pés!” Ao que Jesus lhe advertiu: “Se Eu não lavar os teus pés, tu não terás parte comigo. ” 9Rogou-lhe Simão Pedro: “Senhor, lava não somente meus pés, mas também, as minhas mãos e a minha cabeça!” 10Explicou-lhe Jesus: “Quem já se banhou precisa apenas lavar os pés; o seu corpo já está completamente limpo. Vós também estais limpos, mas nem todos.” 11Pois Jesus sabia quem iria traí-lo, e por isso disse: “Nem todos vós estais limpos.”
12Após haver lavado os pés dos seus discípulos, tornou a vestir sua capa, voltou a sentar-se à mesa e lhes indagou: “Compreendeis o que vos fiz? 13Vós me chamais ‘Mestre’ e ‘Senhor’, e estais certos, pois Eu, de fato, o sou. 14Dessa maneira, se de vós Eu Sou Senhor e Mestre e ainda assim vos lavei os pés, igualmente vós deveis lavar os pés uns dos outros. 15Dei-vos um exemplo para que, como Eu vos fiz, também vós o façais. 16Em verdade, em verdade vos afirmo que nenhum escravo é maior do que seu senhor, como também nenhum enviado é maior do que aquele que o enviou. 17Portanto, se vós compreenderdes esse ensinamento e o praticardes, abençoados sereis. “ (Jo 13)

O que fez ele tomar essa decisão, preferir o amor ao temor? Será que tinha outra visão do homem? Não. Ele sabia dos limites de nosso ser. A diferença entre ele e o príncipe de Maquiavel é que este não sabia ser o amor um poder na fraqueza. O temor pode gerar obediência, mas só o amor pode gerar consciência.

Apesar de todo o pecado da humanidade, o príncipe da paz viu em nós um potencial diferente do destrutivo tão perceptível por todos, viu nossa capacidade de amar e nisso ele investiu toda a sua vida.

E você o que prefere?

Ivo Fernandes
4 de fevereiro de 18


sábado, 3 de fevereiro de 2018

A comunhão para além dos muros de gênero



Leitura: Gálatas 3
“Nem homem, nem mulher”
A expressão em Gálatas “nem homem, nem mulher” sempre foi utilizada na teologia cristã apenas nas questões soteriológicas. Pois do ponto de vista social a igreja na maioria das vezes sempre manteve a clara distinção entre homens e mulheres.

Depois com a discussão feminista se tentou levar a reflexão em torno do termo, para o desmonte do esquema androcêntrico e machista. Hoje com a atual discussão de gênero tenta-se incluir nessas discussões questões que envolve o transgênero.

Mas afinal, o que podemos concluir de tal expressão? Ora, vamos partir do óbvio, o texto não faz referência a questão biológica. Pois em Cristo não está anulada a nossa condição biológica. Portanto nesse quesito, homens     e mulheres serão sempre diferentes, e não há razão da menor discussão em relação a isso. No entanto, homens e mulheres não são apenas condições biológicas, são também condições psicossociais. E aqui é onde a questão deve se concentrar.

Socialmente homens e mulheres sempre se mantiveram distintos por força do controle na maioria das vezes dos homens, reduzindo o papel e o valor das mulheres. E o fundamento de tal diferença sempre foi arbitrário. Hoje, a partir do ponto de vista das ciências sociais e da psicologia, principalmente, o gênero é entendido como aquilo que diferencia socialmente as pessoas, levando em consideração os padrões histórico-culturais atribuídos para os homens e mulheres. Por ser um papel social, o gênero pode ser construído e desconstruído, ou seja, pode ser entendido como algo mutável e não limitado, como define as ciências biológicas.

Portanto socialmente falando não é nossa condição biológica que nos define. Nossa identidade é construída a partir de condições sociais, é aqui que entra outras discussões como a questão transgênero.

Toda discussão que tomou as redes cristãs que se chamou ideologia de gênero nada mais é do que uma disputa social de poder entre as partes envolvidas. Não é uma discussão das condições biológicas, é uma discussão social que envolve funções, poder, lugar que se ocupa no interior de uma sociedade.
A manutenção, portanto, desse tipo de disputa é o contrário do que o Evangelho declara quando diz “nem homem, nem mulher”. A espiritualidade não está atrelada a questão do gênero. Nenhum homem tem mais autoridade espiritual do que a mulher pelo simples fato de ele ser homem. O que qualifica a espiritualidade é o amor, por isso se diz que o homem enquanto cabeça deve amar como Cristo Amou. Ora não é o gênero que o estabelece como cabeça, mas o amor.
Logo, a manutenção de uma hierarquia machista, ou a discussão de poder em torno do gênero não condizem com o Evangelho. A comunhão derruba esses muros e nos torna um só Nele.
Ivo Fernandes
28 de janeiro de 18


domingo, 28 de janeiro de 2018

A comunhão para além dos muros sociais



Leitura: Gálatas 3

“Nem escravo, nem livre”

Desde a invenção da propriedade privada e o consequente aparecimento das classes, que o mundo nunca mais vivenciou um tempo de igualdade social. Teologicamente podemos também atrelar isso ao pecado, uma vez que no mito edênico, depois da queda, os homens passam a lutar pelo direito de posse, e as diferenças são inauguradas.

Na contemporaneidade isso é fortíssimo, somos divididos pelo capital e seus subprodutos. Avaliamos e somos avaliados pelas condições socioeconômicas. E tudo está atrelado a isso, de nossa honra a nossa fé.

Porém, é claro no Evangelho que em Jesus as barreiras sociais devem ser derrubadas. E com isso não estamos falando de adotar algum regime político específico, como o socialismo por exemplo, mesmo que possamos afirmar que existem regimes menos evangélicos que outros. O Caminho de Jesus é um caminho de partilha, e isso não deve ser confundindo com o comunismo político.
A derrubada dos muros sociais não está, para o Evangelho, na tomada do Estado por uma classe, nem na luta armada, na verdade ela não começa de cima, dos locais do macro poder. No Evangelho essa mudança começa na base, partindo da consciência de cada caminhante que Deus ama a justiça. Desde a revelação no AT que percebemos o cuidado de Deus com os que não podem cuidar de si, ou que foram vítimas dos esquemas injustos do mundo. No NT por todo o ministério de Jesus vemos a mesma preocupação e a igreja primitiva também compreendeu essa missão.

Perceberam então a diferença? Não é um movimento político coletivo, mas uma consciência e prática individual, que evidentemente pode somar forças para produzir algo maior, que o Evangelho promove. No Evangelho não há um louvor da condição do pobre e nem uma demonização da condição social do rico. O que há é uma percepção de que os cuidados aos pobres devem ser prioridade no reino e que os ricos são chamados a responsabilidade nesse processo. O pobre exaltado é aquele que na sua condição em vez de desesperançar mantém sua fé Naquele de quem tudo depende. E o rico criticado é aquele que na sua condição, esquece dos bens espirituais e dos serviços de caridade. Não é exatamente a condição financeira que é discutida, mas a condição espiritual de cada um.

Há uma tensão entre uma abordagem da justiça social que é centrada em Deus e da que é centrada no homem. A abordagem centrada no homem vê o governo no papel de salvador, trazendo consigo uma utopia por meio de políticas governamentais. A abordagem centrada no Evangelho vê Cristo como Salvador, que restaurará todas as coisas e executará a justiça perfeita. Até então, os cristãos expressam o amor e a justiça de Deus ao mostrar bondade e misericórdia para com os menos afortunados, derrubando assim os muros sociais, e estabelecendo uma comunhão entre servos e livres, ricos e pobres, de maneira que não haja entre nós quem não tenha o que necessita para o bem.

Aconselho a leitura do livro de Tiago e a prática dos seus conselhos!

Ivo Fernandes
21 de janeiro de 18

sábado, 20 de janeiro de 2018

A comunhão para além dos muros da Religião


Leitura: Gálatas 3

“Nem judeu nem grego”

O Evangelho não é religião simplesmente porque não se limita por credos, crenças ou normas. A Bíblia, sim pode ser dita que possui orientações etnicistas cheia de conteúdos morais vinculados a certos grupos sociais, todavia o Evangelho nela contido é maior que as escrituras. A Bíblia é texto humano, o Evangelho é promessa divina.

O povo judeu segundo a carne se considera eleito em detrimento dos demais. O cristianismo herdou essa característica, mas o Evangelho não é elitista, e sim universal.

Os profetas sabiam dessa diferença, por isso enfrentaram os sacerdotes de seu tempo, anunciando a Luz para todas as nações. Jesus tinha essa consciência profética por isso em todo seu ministério não se limitou ao seu povo ou território.

Por todo o ministério de Jesus vemos que ele anunciou a graça a todos os povos, e reconheceu a fé em diferentes credos. Os discípulos entenderam a universalidade da Graça e se tornaram missionários pelo mundo. Entenderam que não é imundo aquilo que Deus santifica.

Portanto o evangelho não depende de nenhum contexto cultural ou religioso. Não há espaço para nenhum elitismo cristão.

A igreja é que na história destruiu culturas e promoveu perseguição a outras religiões. O Evangelho ao contrário atrai a todos! Quem tem o Evangelho não é um perseguidor e nem juiz do credo alheio. Todo preconceito é contrário ao Evangelho.

Em Cristo não há ...judeu nem grego...

Quem está em Cristo não tem preconceito. Se há preconceito não há entendimento do Evangelho.

O Evangelho derruba os muros da religião e estabelece a comunhão entre os povos!

Ivo Fernandes
14 de janeiro de 2018


segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Carta Aberta


O ano era 2008 e eu sentia que minha vida iria desmoronar mais uma vez. Sonhos rachados e todas as minhas tentativas em vão. Ainda tentei remendar cacos por três anos. Dor, aflição, angústia, tristeza e um monte de experiências que por fora pareciam prazerosas, mas tinham como raiz essas sensações descritas.

Dois anos antes já havia tomado uma das decisões mais sérias da minha vida, romper com uma tradição religiosa familiar. Era o ano de 2006 quando disse não a toda experiência religiosa que não retratasse a verdade do meu coração. Começava a Estação do Caminho da Graça em Fortaleza. Mas minha libertação estava apenas começando, uma mais dolorida ainda estava por vir.

Em 2004 já havia decidido viver uma experiência nova de espiritualidade, mais de acordo comigo mesmo. Esse desejo, sempre foi a minha busca, apesar do termo “nova” nada tinha de novo, era a mesma sede que desde a minha infância me tomava, mas que não encontrou nos centros religiosos que passei espaço para se desenvolver.

Esse espaço só veio surgir definitivamente quando rompi laços e anunciei publicamente a minha caminhada de fé sem os rótulos anteriores. Mas como disse isso era só o começo. A minha vida pessoal estava passando por tribulações muito sérias, tão sérias que no decorrer de 3 anos de lutas não resisti e enfrentei o fim de um sonho, a destruição de um castelo.

Era final de ano de 2010 quando em meio a dores infinitas fiz um trato comigo mesmo. Não era um novo caminho de fé, era um novo caminho pessoal. Fiz um pacto de verdade da minha alma com a minha alma. Um pacto de sangue, que até hoje tenho mantido com todo esforço possível.

Começava uma jornada de encontrar meu mundo no mundo, minha forma de viver na vida. Conheceria meus limites, meus prazeres, minhas alegrias, meus desejos, meu querer e minha fé. E nesses 12 anos seguintes vim me tornando cada vez eu mesmo.

Vivi tudo que quis viver. Experimentei tudo que quis experimentar. E não consumi aquilo que não quis consumir. Era um homem em teste, e como me testei. E com isso, cresci, amadureci. No meio desses doze anos morri. E na morte fui ao inferno e de lá, Aquele que é Dono de tudo, decidiu me tirar. Uma nova vida, porém, sob a insígnia da morte. Mais um aprendizado, viver como que morto!

Pois bem, tudo isso para dizer que nesse tempo de tantas mudanças, algumas coisas sempre foram a mesma, a fé, a verdade da alma, a honra e dignidade. Coisas que jamais foram abaladas em mim, nem diminuídas, nem negociadas.

Mas nesse tempo, observei que muitos que seguiam comigo viram no meu processo de ser, uma oportunidade para mudar, mas aquilo que deveria ser bom, não se mostrou tão bem assim para alguns. Pois na tentativa de experimentarem a liberdade que me envolvia, abandonaram a fé, traíram a si mesmos, e a valores que não poderia ser negociado. Alguns perderam a honra e a dignidade. E o pior, associaram tudo ao meu nome, ou ao fato de estarem comigo ou perto de mim.

Se não fosse a minha liberdade e a vontade de ser eu mesmo acima de tudo, teria hoje uma estrutura religiosa fortíssima, pois o que percebi é que mesmo diante do ensino da Graça e da liberdade e da responsabilidade, a maioria das pessoas deseja o controle, a proibição. Não querem chamar para si a responsabilidade da vida, dessa forma recai sobre aquele que ensina a responsabilidade de todas as atitudes tomadas pelos outros.

E o que eu nunca fiz, nunca senti vontade ou que sequer passou pela minha cabeça eu vi. Alguns voltaram a religião, pois consideravam que era o único jeito de salvar suas almas e suas histórias. Outros começaram a mentir para si mesmo, e se mantinham perto de mim com uma espiritualidade maquiada, já não havia fé, mas também não havia coragem de dizer não creio. Os corajosos esbravejaram para os quatro ventos seu ateísmo ou seu suposto agnosticismo, e nisso começaram a se orgulhar, como se o fruto do meu trabalho fosse dar a eles a condição de não crer. Mas, o que isso tudo tem a ver comigo?

Algumas pessoas consideraram que seus comportamentos ou de seus parentes eram movidos pelos meus e pelos meus discursos. Atrelaram a mim a ruína de suas relações. Mas como, se o que mais fiz foi tentar salvá-los? O fato é que vi louvores virarem piadas, adoração virar cansaço, e culto virar evento social. Não queriam mais um pregador da Palavra, queriam um palestrante, um terapeuta, um humorista, ou qualquer coisa assim.

Mas tenho eu responsabilidade nisso tudo? Talvez sim, mas como ter sido diferente, pois no meu caminho de salvar a minha própria alma a única coisa que decidi entre os meus foi lhes ser transparente, honesto, sincero e escancarar até minhas vísceras?!

Meu pecado foi esquecer que a maioria das pessoas não deseja um líder humano. Precisam de ícones, de referências, de padrões morais. O problema é que quis salvar minha alma de me tornar uma coisa não humana chamada PASTOR, e quis apenas ser um homem que dentro de suas limitações cuidava daqueles que se permitiam ser cuidados por mim, um médico ferido.

E hoje, no primeiro dia de um novo ano, eu quero pedir perdão aos que erraram por minha causa, aos que se desviaram do Caminho por causa do meu caminho, aos que perderam a fé ou a negaram por não encontrarem em mim o que precisavam, aos que vacilaram na honra e na ética por não encontrarem em mim exemplo suficiente.

Saibam, nunca, nunca, nunca, foi minha intenção. Na verdade, tudo que quis foi o contrário, quis caminhar junto com todos, errando e aprendendo, mas sempre crescendo na Graça. O que aconteceu que vocês não viram isso?

Não! Não posso generalizar, parece sim que alguns entenderam, pois como fruto desse trabalho não tem só minha própria alma. Louvo a Deus por aqueles que em cruzando o caminho com o meu, melhoraram como pessoas, foram libertos do medo, do engano, da mentira e da religião hipócrita e se tornaram melhores pessoas e em tudo manifestam a glória de Deus.

Dessa forma, fazendo um balanço, sei que cometi erros no caminho por mim escolhido, mas ainda continua sendo o melhor caminho para o bem da alma. Felizes os que me ouvirem e entenderem que a única coisa que nos salva é o Evangelho que nos dá condições de sermos melhores. Não se trata de um aval para a loucura, mas da liberdade de construir o ser sem as amarras do engano.

Para melhorar ainda mais como gente e como pregador venho fazendo mudanças que não estão agradando a todos, mas julguem os motivos do não agrado. Eu não posso aceitar críticas de quem deseja de mim apenas o ator e não o homem de fé.

Em 2018 desejo continuar no processo de salvar a minha alma e continuarei pregando o Evangelho da Liberdade. Talvez minha postura não seja tão escancarada como antes, não por que desejo fingir qualquer coisa, mas para o bem da alma daqueles que em não tendo honra suficiente para assumir a própria vida, procuram em mim as justificativas de seus fracassos.

Que Deus me perdoe por todos os meus pecados e me ajude a ser o que peço desde a minha infância, ser uma pessoa que serve ao Evangelho!

Ivo Fernandes
1 de janeiro de 2018



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

1 Coríntios – Uma síntese


A Certeza

Deus é fiel (1.9)

A Promessa

Ele os conservará firmes até o fim, de modo que sereis irrepreensíveis no Dia de nosso Senhor Jesus Cristo (1.8)

O ministério

Nós, entretanto, proclamamos a Cristo crucificado (1.23)

Deus, todavia, o revelou a nós por intermédio do Espírito! (2.10)

Nós, entretanto, não recebemos o espírito do mundo, mas, sim, o Espírito que vem de Deus, a fim de que possamos compreender o que por Deus nos foi outorgado gratuitamente (2.12)

Porquanto, assim como o corpo é uma só unidade e possui muitos membros, e todos os membros do corpo, ainda que muitos, constituem um só organismo, assim também ocorre em relação a Cristo. Pois todos fomos batizados por um só Espírito, a fim de sermos um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres; e a todos nós foi dado beber de um único Espírito. (12.12,13)

A fé

Cristo é o poder de Deus e sabedoria de Deus (1.24)

No entanto, em realidade, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo Ele o primeiro dos frutos dentre aqueles que dormiram. Porque, assim como a morte veio por um homem, da mesma forma, por um homem veio a ressurreição dos mortos. Porquanto, assim como em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados. Contudo, cada um por sua vez: Cristo, o primeiro; logo depois, os que são de sua propriedade na sua vinda. Então virá o fim, quando Ele entregar o Reino a Deus, o Pai, depois de ter destruído todo domínio, potestade e poder. Porque é necessário que Ele reine até que absolutamente todos os seus inimigos sejam prostrados debaixo de seus pés. E o último inimigo que será destruído é a Morte. Pois Ele “tudo sujeitou debaixo de seus pés”. Porquanto, quando se afirma que “tudo” lhe foi submetido, é evidente que isso não inclui o próprio Deus, que conduziu todas as coisas à submissão de Cristo. Todavia, quando tudo lhe estiver sujeito, então o próprio Filho se submeterá àquele que todas as coisas lhe colocou aos pés, a fim de que Deus seja absolutamente tudo em todos. (15.20-28)

A esperança

“Olho algum jamais viu, ouvido algum nunca ouviu e mente nenhuma imaginou o que Deus predispôs para aqueles que o amam”. (2.9)

O Pedido

Suplico-vos, queridos irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que concordeis uns com os outros no que falam, a fim de que não haja entre vós divisões; antes, sejais totalmente unidos, sob uma mesma disposição mental e no mesmo parecer (1.10)

Assim, seja comendo, seja bebendo, seja fazendo qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus (10.31)

Segui o caminho do amor e exercei com zelo os dons espirituais; contudo, especialmente o dom de profecia. (14.1)
Vigiai, permanecei firmes na fé, portai-vos corajosamente, sede fortes! Fazei tudo com grande amor fraternal.  (16.13, 14)

Escrito por Paulo, o apóstolo, organizado por Ivo Fernandes

03 de dezembro de 17

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A Cruz Eterna


Um dos textos recentes estudados em nossa reunião “Entendes o que lês? ” foi esse:

“ 26E o último inimigo que será destruído é a Morte. 27Pois Ele “tudo sujeitou debaixo de seus pés”. Porquanto, quando se afirma que “tudo” lhe foi submetido, é evidente que isso não inclui o próprio Deus, que conduziu todas as coisas à submissão de Cristo. 28Todavia, quando tudo lhe estiver sujeito, então o próprio Filho se submeterá àquele que todas as coisas lhe colocou aos pés, a fim de que Deus seja absolutamente tudo em todos.” (1 Co 15)

Um texto que me remete ao plano maravilhoso Daquele que executa tudo em todos (1Co 12.6).

Sim! Deus em quem creio é o Senhor soberano de toda a história. Por essa razão é que também creio que “O Cordeiro de Deus foi imolado por nós antes da fundação do mundo” (Apc 13.8), pois do contrário o sacrifício de Jesus seria um remendo numa história fraturada.

Ora, tal afirmação é um pilar da fé caminhante. Ela tira a cena da cruz história e a coloca no próprio Deus que não pode ser pensado com as nossas categorias de tempo e espaço. Deus não sofre com o tempo, não muda, não envelhece, a Cruz também não.

Antes de tudo houve Cruz! Logo, tudo o que foi criado carrega o potencial da Graça. Tudo veio da Cruz por causa da Graça, e tudo se dirige a Graça por causa da Cruz. Daí podemos afirmar que “todas as coisas cooperam conjuntamente, para o bem de quem ama a Deus. ” (Rm 8.28).

Deus amou o mundo (Jo 3.16), por isso para cria-lo precisou se entregar por ele antes. Assim, sem Cruz não haveria criação. E uma vez criado é pela cruz que tudo subsiste. A Cruz permitiu a criação, e ela mesmo que está conduzindo toda a criação para o próprio Criador.

Tudo começa em Deus por meio da Cruz e termina em Deus por causa da Cruz. Tudo que veio Dele, um Dia vai voltar para Ele! O Cordeiro Imolado é o fundamento de toda obra criada e a razão da reconciliação de todas as coisas Nele. 

E talvez alguém pergunte: Se a cruz vem antes como fica a questão do pecado? E aqui está a revolução. A Cruz vem antes da Queda. Sem Cruz não haveria criação, não haveria liberdade, não haveria pecado. Eis o mistério da salvação, quando pecamos já o fazemos no território da Graça.

Deus decidiu criar, e em razão da liberdade necessária, já criou tudo sob o manto da redenção. Viver com essa fé produz libertação de todo medo e culpa para sempre. A liberdade começa a partir dessa consciência. Não há a menor chance de haver um caminho de paz fora dessa consciência.

Afirmar tal soberania não é tirar de Deus a relação com sua criação, é antes assumir que fora de Deus não existe nada absoluto. Só Deus É e todas as demais coisas são Nele. Por isso se diz “Há um só Deus e Pai de todos, que age por meio de todos e está em todos! ” (Ef.4.6).

Dessa forma até para existir negando a Deus, é preciso ser em Deus. Toda escolha livre dos homens só pode ser feita Nele, sem o qual nada é. Logo, a Cruz antes não é o fim da liberdade dos homens, mas sua garantia. Pois até para escolher o inferno é preciso ser alvo da Graça revelada na Cruz.

Mas apesar da escolha da negação da Graça e do juízo advindo disso, a última cena da história é uma Comunhão Cósmica de todas as coisas e de todos em Deus. Uma cena que põe fim a todo exclusivismo religioso (Mt 8.11). Concluindo, o juízo existe, e só existe porque existe Graça, mas ao final, no entanto, a Graça e a Misericórdia triunfam sobre o Juízo. (Rm 8: 16-24).

E a garantia disso: O Cordeiro foi imolado antes da fundação do mundo!

Ivo Fernandes

26 de novembro de 2017  

Jesus, o príncipe que decidiu ser amado em vez de temido

Todas as vezes que estou dando aula sobre Maquiavel não tem como não me inclinar a concordar com sua reflexão política sobre a ét...